Ostermann e a história do chocolate que encolhe e a conta que cresce
Uma barra de chocolate de 80 gramas hoje parece absolutamente normal nas prateleiras dos supermercados. Mas quem tem idade suficiente para lembrar dos anos 1990 e 2000 sabe que não era assim.
Barras de 150, 180 e até 200 gramas eram comuns. O que antes era uma barra normal hoje, muitas vezes, receberia o rótulo de “tamanho família”.
O fenômeno tem nome: reduflação. Em vez de simplesmente aumentar o preço de um produto, a empresa reduz seu tamanho, sua quantidade ou seu peso. Você continua pagando mais ou menos aquilo que estava acostumado a pagar — às vezes até mais — mas leva menos para casa. É uma espécie de inflação escondida dentro da embalagem.
Existe uma razão econômica bastante simples para isso. O fabricante sabe que o consumidor percebe imediatamente quando uma barra que custava R$ 7 passa a custar R$ 10. A comparação é direta e a reação também: trocar de marca, reduzir o consumo ou simplesmente deixar de comprar.
Diminuir alguns gramas, no entanto, é menos perceptível. A embalagem continua parecida, a posição na prateleira é a mesma, a marca é a mesma e o preço talvez nem tenha mudado tanto. Só que o preço por quilo entrega aquilo que a embalagem tenta esconder: estamos pagando cada vez mais por cada vez menos produto.
Antes de transformar o fabricante ou o supermercado em vilões, porém, é preciso fazer uma pergunta mais importante: por que existe tanta pressão para aumentar preços ou diminuir produtos?
Empresários não ficaram subitamente mais gananciosos. A busca por lucro já existia quando as barras tinham 200 gramas. A diferença está no ambiente econômico em que essas empresas precisam produzir.
O preço do chocolate depende do cacau, do açúcar, do leite, da energia elétrica, do combustível utilizado no transporte, da embalagem, dos salários, dos juros para financiar estoque e máquinas, dos impostos e, em muitos casos, do dólar.
Quando esses custos aumentam, alguém terá de pagar a conta. Às vezes ela aparece diretamente no preço. Às vezes aparece em uma embalagem menor. É aqui que entra uma responsabilidade que frequentemente desaparece do debate público: a do governo pela estabilidade da moeda e pela saúde das contas públicas.
Inflação pode ter várias causas. Uma quebra de safra pode aumentar o preço dos alimentos. Uma guerra pode encarecer petróleo e fertilizantes. Uma explosão na cotação internacional do cacau evidentemente afeta o chocolate.
Mas governos irresponsáveis conseguem transformar pressões pontuais em um problema muito maior.
Quando o Estado aumenta permanentemente suas despesas sem aumentar na mesma proporção sua capacidade de financiá-las, o dinheiro precisa sair de algum lugar.
Pode vir de impostos maiores, pode vir de mais dívida ou pode vir da corrosão do valor da moeda. Nenhuma dessas alternativas é gratuita.
O problema brasileiro é que Brasília frequentemente parece acreditar que existe uma quarta opção: gastar sem que ninguém pague. Não existe. O gasto público não cria recursos do nada. Quando o governo captura mais dinheiro por meio de impostos ou dívida, são recursos que deixam de estar disponíveis para famílias e empresas.
Recursos que poderiam financiar uma máquina nova, uma fábrica, uma contratação, uma inovação ou um pequeno negócio passam a financiar uma máquina pública cada vez maior, muitas vezes sem qualquer ganho equivalente de produtividade ou qualidade dos serviços prestados.
Quando os gastos crescem persistentemente acima das receitas, surge ainda outro problema. Quem empresta dinheiro ao governo começa a perguntar quem vai pagar essa conta. A percepção de risco aumenta, os investidores exigem juros maiores para financiar a dívida pública e o câmbio sofre pressão.
Um real mais fraco encarece tudo aquilo que o Brasil importa — máquinas, componentes, produtos químicos, fertilizantes, combustíveis — e também produtos brasileiros cujos preços são determinados internacionalmente.
A inflação chega ao supermercado por caminhos que quase nunca aparecem na etiqueta, mas aparecem no preço final de praticamente tudo o que consumimos.
Depois vem a ironia. Para impedir que esse processo saia do controle, é necessário manter os juros elevados. Juros altos reduzem a demanda e ajudam a controlar os preços, mas também tornam mais caro financiar uma casa, um carro ou uma empresa.
O pequeno empreendedor posterga a compra de uma máquina, a indústria adia uma expansão, o comércio reduz estoques e projetos deixam de sair do papel. O investimento diminui. Sem investimento há menos produtividade. Sem produtividade, o país cresce menos. E sem crescimento de produtividade, o salário real encontra enorme dificuldade para avançar de maneira sustentável.
É um círculo perverso. O governo aumenta seus gastos, deteriora as expectativas fiscais e pressiona os juros e câmbio. Depois, os juros precisam permanecer altos justamente para impedir que a inflação se espalhe.
É o Estado tentando apagar com uma mão o incêndio para o qual jogou combustível com a outra. E quem paga a conta não é uma abstração chamada “mercado”. É você. Paga quando financia um imóvel, quando uma empresa deixa de contratar, quando o supermercado aumenta seus preços, quando o real perde poder de compra e quando abre uma embalagem aparentemente igual àquela que comprava alguns anos atrás e percebe que há cada vez menos produto lá dentro.
Por isso, responsabilidade fiscal não é uma obsessão de economista nem um capricho de quem gosta de planilhas. É política social. Controlar o gasto público significa proteger o valor do salário de quem trabalha, permitir juros estruturalmente menores, preservar o poder de compra das famílias e deixar mais recursos disponíveis para investimento, produção e geração de empregos.
Significa também reconhecer uma verdade que o populismo tenta esconder há décadas: não existe almoço grátis — e muito menos chocolate grátis.
Se queremos aumentar de verdade o poder de compra dos brasileiros, não basta decretar preços, culpar os supermercados ou acusar empresas de ganância. Precisamos atacar o problema estrutural: gastar melhor e gastar menos, reduzir desperdícios e privilégios, controlar a dívida, simplificar impostos, criar segurança para quem investe e aumentar a produtividade da economia.
Em resumo, precisamos fazer o Estado caber no bolso do brasileiro. Porque Brasília pode maquiar déficit, mudar regra fiscal, inventar imposto e criar todo tipo de explicação para justificar mais gasto, mas não consegue revogar as leis da economia.
A conta sempre chega. Às vezes vem na forma de impostos maiores. Às vezes vem na forma de juros. Às vezes aparece na inflação. E, às vezes, chega discretamente na prateleira do supermercado: na mesma embalagem, pelo mesmo preço, só que com cada vez menos chocolate dentro.